Imóveis

Documentos para comprar imóvel: o que conferir antes de pagar o sinal

Como ler matrícula, certidões, IPTU e dívida de condomínio para comprar imóvel sem cair em fraude ou herdar processo do vendedor.

O sinal de R$ 30 mil que o Rafael quase perdeu

O Rafael mora em Santo André e há uns dois anos achou o que parecia o negócio da vida dele: um apartamento de 68 m² na divisa com São Caetano, por R$ 420 mil, uns 12% abaixo do que o resto do prédio pedia. O vendedor tinha pressa, falava em "transferência urgente", e ofereceu mais desconto se o sinal de R$ 30 mil caísse na conta naquela semana. O contrato de promessa de compra e venda estava pronto, redigido por um advogado, com cláusulas, testemunhas, tudo no capricho.

Rafael quase assinou. O que segurou a mão dele foi um detalhe chato: o corretor não conseguia entregar uma matrícula atualizada. Mandava sempre a mesma cópia de 2019. Quando Rafael insistiu e tirou a certidão atualizada no cartório de registro de imóveis (pagou por volta de R$ 80 e saiu na hora), apareceu uma penhora averbada por causa de uma execução trabalhista contra o vendedor. O apartamento estava, na prática, comprometido em juízo.

Aqui vai a parte que muita gente não entende: aquele contrato lindo não protegia o Rafael de quase nada. Promessa de compra e venda é um acordo entre as partes. Ela não apaga uma penhora registrada na matrícula. Se ele tivesse pago e transferido, entraria numa briga de anos para reaver o dinheiro de alguém que já devia para meio mundo. O sinal teria virado prejuízo.

A matrícula é a certidão de nascimento do imóvel

Se você só puder olhar um documento na vida, olhe a matrícula atualizada. Ela é emitida pelo cartório de Registro de Imóveis da região onde fica o bem e funciona como uma linha do tempo: cada coisa que aconteceu com aquele imóvel está escrita ali, em ordem. Quem foi dono, quando vendeu, se tem financiamento, se foi dado em garantia, se tem usufruto, se foi penhorado, se foi reformado e regularizado. Tudo vira uma "averbação" ou um "registro" numerado.

O ponto crítico é a palavra atualizada. Uma matrícula impressa há seis meses pode estar maquiando o que apareceu depois. Peça sempre a de no máximo 30 dias, e de preferência tire você mesmo, presencial ou pela central de registradores online. Custa pouco, algo entre R$ 50 e R$ 100 dependendo do estado, e é a melhor aplicação financeira da sua vida se evitar uma roubada de centenas de milhares.

Quando abrir o documento, vá direto para o fim. A última averbação é a foto mais recente da situação. Confira se o nome do vendedor é mesmo o do proprietário registrado (parece óbvio, mas tem gente vendendo imóvel que está no nome do pai falecido, sem inventário concluído). E leia com calma a seção de ônus: é ali que mora hipoteca, alienação fiduciária, penhora e indisponibilidade.

Ônus e averbações: o que pode estar grudado sem aparecer

No caso do Rafael, o ônus era uma penhora. Mas os tipos mais comuns que travam ou complicam uma compra são outros. A alienação fiduciária, por exemplo, é normal: significa que o imóvel ainda está financiado e pertence ao banco até a quitação. Isso não impede a compra, mas muda o roteiro inteiro, porque o financiamento precisa ser quitado dentro da operação, e isso costuma exigir um cuidado redobrado com a ordem dos pagamentos.

Já uma penhora ou uma indisponibilidade de bens é sinal vermelho. Quer dizer que o imóvel responde por uma dívida do dono, e em muitos casos a venda pode ser anulada depois por fraude à execução, mesmo que você tenha agido de boa-fé. Não é o tipo de risco que se compensa com 12% de desconto. Na nossa experiência, quando o desconto é grande demais e o vendedor tem pressa demais, a explicação quase sempre está escondida na matrícula.

Tem também a parte boa de ler averbações: descobrir se aquela suíte extra ou a área de serviço fechada foram regularizadas. Imóvel com construção "a mais" não averbada pode dar dor de cabeça na hora de financiar, porque o banco avalia o que está registrado, não o que está construído.

As certidões do vendedor importam tanto quanto as do imóvel

Aqui está o erro que mais vejo: o comprador analisa o apartamento e esquece de analisar a pessoa que está vendendo. Acontece que dívidas do vendedor podem se voltar contra o imóvel depois da compra, principalmente se ficar caracterizado que ele se desfez do bem para não pagar credores. Por isso existe o pacote de certidões do vendedor, que você deve pedir tanto da pessoa física quanto, se houver, da empresa dela.

Vale puxar as certidões de distribuição da Justiça Estadual e da Justiça Federal das comarcas onde o vendedor mora e onde fica o imóvel, a certidão da Justiça do Trabalho (a famosa CNDT), e as certidões de protesto em cartório. Cada uma mostra um tipo de processo ou pendência. Não é que qualquer ação espante o negócio: muita gente tem um processo bobo. O que você quer enxergar é o conjunto, especialmente execuções e dívidas grandes que poderiam alcançar o patrimônio.

Se o vendedor é casado, peça os documentos do cônjuge também, e confirme o regime de bens. E se a venda for feita por procuração, redobre a atenção: confira a procuração no cartório que a lavrou e desconfie de quem evita que você fale diretamente com o proprietário. Golpe com procuração falsa não é raro.

IPTU, condomínio e a conta que vem junto com as chaves

Tem uma característica do imóvel que pega muita gente desprevenida: certas dívidas são chamadas de obrigações propter rem, ou seja, acompanham o bem e não a pessoa. As duas mais comuns são IPTU atrasado e cota de condomínio em aberto. Se o antigo dono deixou R$ 14 mil de condomínio pendurado, quem comprou é quem vai ser cobrado. O síndico bate na sua porta, não na do vendedor que sumiu.

Por isso, antes de fechar, peça a certidão negativa de débitos do IPTU na prefeitura e a declaração de quitação de condomínio assinada pelo síndico ou pela administradora. Essa declaração deve dizer, preto no branco, que não há cota em atraso até a data. Vale também pedir a previsão de rateios extras: aquele prédio que vai trocar os elevadores ou refazer a fachada pode jogar uma cobrança especial de R$ 8 a R$ 15 mil no seu colo poucos meses depois da mudança.

Faça as contas com cabeça fria. Um imóvel R$ 20 mil mais barato que carrega R$ 14 mil de condomínio atrasado, R$ 6 mil de IPTU e uma derrama de fachada chegando deixou de ser barato. A pechincha existe no anúncio, não na planilha.

Quando avançar e quando ouvir o instinto e parar

Depois de muito ler matrícula, a gente desenvolve um faro. O negócio saudável é aquele em que a documentação sustenta o preço: a matrícula está limpa ou com pendências explicáveis, o vendedor é o dono de verdade, as certidões não mostram execução, e IPTU e condomínio estão em dia. Quando tudo isso bate, o desconto é só um bom desconto, não uma armadilha.

O sinal de alerta é o desencontro. Pressa exagerada, dificuldade de entregar a matrícula atualizada, vendedor que não aparece, procuração no meio do caminho, valor muito abaixo do mercado da região sem motivo claro. Cada um desses, isolado, pode ter explicação. Dois ou três juntos, no mesmo negócio, costumam ser o roteiro de um problema. A regra que sugerimos é simples e impopular: só libere dinheiro depois que a papelada fechar, nunca antes.

E sim, isso às vezes faz você perder uma oportunidade real para um comprador mais afoito. Tudo bem. Imóvel é a maior compra da vida da maioria das pessoas. Perder um bom negócio dói por uma semana; entrar num imóvel com vício dói por anos e custa advogado.

O passo a passo que o Rafael usa hoje

Depois do susto, o Rafael montou um roteiro próprio, e ele comprou um imóvel tranquilo seis meses depois usando exatamente essa ordem. Primeiro, antes de qualquer conversa séria sobre preço, ele pede a matrícula atualizada e lê do começo ao fim, com atenção especial às últimas averbações e à seção de ônus. Se aparecer penhora ou indisponibilidade, a conversa acaba ali.

Em seguida, ele solicita as certidões do vendedor e do cônjuge, mais a CNDT e os protestos. Em paralelo, puxa a certidão de IPTU na prefeitura e a declaração de quitação de condomínio com a administradora, e pergunta direto sobre rateios extras previstos. Só com esse conjunto em mãos é que ele senta para discutir valor e prazo.

Por último, e esse é o detalhe que mudou tudo, ele só assina a promessa de compra e venda e libera o sinal depois que um advogado de confiança lê a documentação inteira. Custou a ele algo por volta de R$ 1.500 de honorários. Diante dos R$ 30 mil que quase evaporaram, foi o dinheiro mais bem gasto da negociação. Documento não é burocracia: é o que separa comprar um imóvel de comprar o problema de outra pessoa.

O que pedir, onde conseguir e o que você está procurando

Use esta lista como ponto de partida. Os valores e prazos variam por estado e cartório, então trate como referência, não como número exato.

DocumentoOnde conseguirO que ele revela
Matrícula atualizadaCartório de Registro de Imóveis (até 30 dias)Dono real, hipoteca, penhora, averbações
Certidões do vendedor (estadual, federal, CNDT)Sites dos tribunais e da Justiça do TrabalhoProcessos e execuções que podem atingir o imóvel
Certidão de IPTUPrefeitura do municípioImposto atrasado que passa para o comprador
Quitação de condomínioSíndico ou administradoraCotas em aberto e rateios extras previstos
Procuração (se houver)Cartório que lavrou o atoSe quem assina tem poder real de vender

Perguntas frequentes

Posso confiar só no contrato se ele foi feito por advogado?

Não. O contrato organiza o acordo entre as partes, mas não apaga uma penhora ou uma dívida registrada na matrícula. A análise documental vem antes e por cima do contrato.

Por que eu pagaria a dívida de condomínio do antigo dono?

Porque a cota condominial em atraso é uma obrigação que acompanha o imóvel, não a pessoa. Quem compra herda o débito. Por isso se exige a declaração de quitação antes de fechar.

A matrícula que o corretor já me mandou serve?

Só se for recente. Uma matrícula com vários meses pode esconder o que apareceu depois. Peça uma emitida nos últimos 30 dias, de preferência tirada por você.

Todo processo na certidão do vendedor é motivo para desistir?

Não necessariamente. Muita gente tem ações pequenas. O que acende o alerta são execuções e dívidas grandes que possam alcançar o patrimônio, ou várias pendências somadas.

Vale a pena contratar advogado para analisar tudo?

Para a maior compra da vida, costuma valer. Os honorários de uma análise costumam ser uma fração mínima do valor do imóvel e do prejuízo de um negócio mal verificado.

Quando posso pagar o sinal com segurança?

Depois que a matrícula, as certidões e as quitações estiverem em mãos e checadas. Liberar dinheiro antes da análise é o erro mais caro e mais comum.

Referências úteis para continuar a pesquisa

Os links abaixo ajudam a conferir regras, canais oficiais e informações de apoio antes de tomar uma decisão. Eles não substituem análise individual de contrato, orçamento ou documentação.